2012/02/23

A génese do poema



GÉNESE

Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura – a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta: mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

Nuno Júdice
pp 302
Poesia Reunida 1967 - 2000
 - Publicações Dom Quixote - 2000

Foto:
Duma varanda da Barreira avista-se a Serra da Maúnça, a Sra. do Monte, nas suas silhuetas matinais, envoltas ainda na neblina do vale do Lis.
 @as-nunes

3 comentários:

Luís Coelho disse...

A poesia acontece e este poema comprova-o perfeitamente.

as-nunes disse...

Caro Luís

A vida é um poema épico, dos mais completos e versáteis e estimulantes que se possam imaginar.

Esta perspectiva fotográfica pode parecer sempre a mesma, repetitiva, até a mim, por vezes, tal avaliação me ocorre, mas não. Cada momento, mesmo que fixado numa fotografia, é único.

O que será da vida se não conseguirmos sentir a poesia que envolve tudo, a todo o momento?

Este mês tenho insistido em Nuno Júdice. De facto. O Grupo de Poetas de Alcanena, este mês, vai abordar este extraordinário escritor.
Gosto muito da sua poesia.

Rui Pascoal disse...

Poesia ou fotografia, uma questão de sensibilidade...
:)
Bela combinação!