2012/09/18

Morreu Luiz Goes, um dos maiores cantores e poetas da música de matriz coimbrã

ASAS BRANCAS (1)

Quando era pequenino a desventura
Trazia-me saudoso e triste o rosto,
Assim como quem sofre algum desgosto,
Assim como quem chora de amargura.

Um anjo de asas brancas muito finas,
Sabendo-me infeliz mas inocente,
Cedeu-me as suas asas pequeninas,
Para me ver voar e ser contente.

E as asas de criança, o meu tesoiro,
Ao ver-me assim tão triste iam ao céu...
Tão leves, tão macias - penas de oiro -
Tão brandas como a aragem... como eu!

Cresci. Cresceram culpas juntamente,
Já grandes são as mágoas mais pequenas!
As minhas asas vão-se... ficam penas!
Não mais voei ao céu, nem fui contente.






(1) Sobre um tema de Almeida Garrett, com o mesmo título.
Esta canção, com música também de minha autoria, foi gravada em discos por Armando Góis (tio de Luís Góis), António Bernardino e ultimamente por Luís Góis.
Todavia, na data desta 2ª Edição, em outras gargantas se tem ouvido e gravado.
in
Do Choupal até à Lapa - Recordações de um antigo Estudante de Coimbra
Afonso de Sousa  (Ilustre advogado Leiriense, poeta e guitarrista de mérito, já falecido)
Coimbra Editora, Lda. - 1988





ps.:
Consta da minha biblioteca, uma extensa coleção dos livros publicados por Afonso de Sousa (1906-1993), dos quais destaco:
Farrapos 
(Leia-se a edição de  26 de Fevereiro de 2018 onde se inclui a caricatura de curso com referências a este livro e a Afonso Costa; esta refª tinha a ver com o facto de nos tempos de estudante se ter apresentado, em jeito de ironia, como o "Afonso Costa" (figura dominante da I República, como se sabe)).
Poesias (Quadras)
Breve notícia de uma geração artística
Frustração
Como eu vi alguns Museus da Europa
Sarça ardente e outras sarças
Roteiros subjetivos na minha terra (3 edições)
Antigas e novas civilizações - (O Egipto - O Brasil)
O canto e a guitarra na Década de Oiro da Academia de Coimbra (3 edições)
Breve Cancioneiro de Coimbra e Outras Trovas (3 Edições)
Do Choupal até à Lapa - Recordações de um Antigo Estudante de Coimbra (1988)  




@as-nunes

4 comentários:

Rogério Pereira disse...

A voz e o fado de Coimbra de Luiz Goes acabaram por ser (injustamente) abafadas por ter coincidido com o aparecimento da balada coimbrã e com as vozes que foram hinos na nossa juventude. É merecida esta homenagem...

elvira carvalho disse...

Foi com tristeza que ouvi a notícia.
Luis Goes tras-me sempre à memória o "Homem só meu irmão"
Um abraço

as-nunes disse...

Este poema, arranjado musicalmente para o fado cantado por Luiz Goes, é da autoria de Afonso de Sousa, que ainda me lembro vagamente de ter visto aqui em Leiria. Era das relações de amizade antigas do meu sogro José Teles Paiva, de saudosa memória (morreu em 1994).
Afonso de Sousa escreveu vários livros dedicados à temática do canto e da guitarra na Academia de Coimbra.

Luiz Goes (Luís Góis como Afonso de Sousa escrevia...) seguiu as pisadas de seu tio, Armando Góis, grande cantor do "fado de Coimbra" e tornou-se uma lenda. Ouvir o fado de Coimbra cantado por Luiz Goes traz-me muitas recordações dos fados/canção que eu trauteei muitas vezes em jovem.
Sou um amante incondicional do Fado de Coimbra.

Isabel Soares disse...

Vozes com a deste homem nunca deveriam calar-se.