2013/09/30

CARTA DE OUTONO


CARTA DE OUTONO

Pensarás que não te escrevi antes porque o verão
consome a energia da alma com um apetite solar; e
porque as tempestades do crepúsculo incendiaram as
palavras com o rápido fogo aéreo. No entanto, eu
ouço aquelas aves que gastaram as asas na travessia
do Espírito, cujos olhos viram o que havia de duvidoso
nas traseiras do invisível, onde um deus culpado
se esconde e se ouvem as vozes sem nexo dos
anjo enlouquecidos. Essas aves deixaram de saber voar,
agarram-se aos ramos dos arbustos e, ao fim da tarde,
gritam em direção às nuvens com os olhos secos e
sem medo. Abri-lhes o peito: e encontrei as entranhas
verdes como as folhas perenes do norte.  Então,
ouço-te bater por dentro de mim, embora estejas morto;
e os teus dedos tenham perdido a força antiga que
desafiava a sombra. Procuro uma entrada no átrio
desabrigado da página; avanço entre sílabas e versos
perdendo-me do silêncio na insistência dos passos.
O passado é todo o dia de ontem; a vida coube-me
neste bolso do infinito onde guardei os últimos cigarros;
o teu amor gastou-se com um breve brilho de
isqueiro. Saio sem desejo dos desertos de outubro
e novembro, arrastando o outono com os pés, nas planícies
provisórias de um esquecimento de estações.

Nuno Júdice 
Poemas em voz alta (p.22)
Dito por Natalia Luiza

Ed. Presença, 1996

4 comentários:

Rui Pascoal disse...

Já chegou cá a carta, e o Outono também.
:)

Rogério Pereira disse...

:)

as-nunes disse...

Muito sinceramente, meus amigos: algo de muito grave se passa comigo.
Sofro com o caminhar dos dias que este estilo capitalista selvagem nos tem levado a trilhar...
Acabei por votar contra a Situação...

Apesar de tudo continuo a querer viver com poesia...
Mas uma dúvida terrível me assalta constantemente: será que a poesia se pode viver lado a lado com tanta indigência a todos os níveis?!...

Graça Sampaio disse...

Bela carta ao estilo do Nuno Júdice!