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2026/03/10

Carlos Lopes Pires - n 1956. A poesia é a linguagem do cosmos. (crónica no semanário "notícias de colmeias")

 CARLOS LOPES PIRES
1956 – A poesia é a linguagem do cosmos.

Caros leitores
Estamos em pleno período de recuperação das destruições medonhas
provocadas pelo ciclone Kristin. Uma coisa impressionante. Não só pelo
fenómeno de força bruta da natureza que se abateu por toda a zona dos
concelhos de Leiria e Marinha Grande, particularmente, mas também pela
forma extraordinária como o meu próprio consciente reagiu no decorrer
do temporal. O ciclone começou por volta das 3 horas da madrugada de
28 de Janeiro. Parece que os seus efeitos começaram a fazer estragos,
ruídos intensos do vento a levantar telhados, partir e arrancar árvores,
destruir estruturas completas de empresas, construídas com vigas
grossíssimas de ferro, postes e cabos de eletricidade e telecomunicações,
etc entre essa hora e as 7 horas. Pois eu só acordei já eram 5 e meia…
Será que já atingi o estágio psicocósmico de serenidade absoluta!?... 
Não creio!!! …
……. § § §
Hoje vou deixar aqui uma crónica que pretende ser uma antecâmara do
que poderá vir a ser um ensaio biográfico da vida e obra poética de Carlos
Lopes Pires. Objectivo singelo, mesmo assim demasiado pretensioso, julgo
eu.


Consultando tudo o que já está tornado público pode ficar-se com uma
ideia de quem é Carlos Lopes Pires, como autor poético. E friso a palavra
poético como um escritor que escreve poemas que não deverão ser
classificados como uma forma de literatura. É o próprio Carlos Pires que
defende essa aparente contradição. Afinal uma pessoa que escreve
poemas como quem respira normalmente acha que esse facto não o deve
catalogar como um escritor que ficará para a posteridade como um sujeito
literário?!...
Mais à frente tentarei explicitar por palavras do próprio autor poético este
aparente paradoxo.
-
Tenho o privilégio de conviver com Carlos Lopes Pires há já bastantes
anos, inclusive ao estilo de confrades que pretendem apresentar-se duma
forma peculiar a conviver em ambiente algo monástico na intenção de
aflorar temas de reflexão mais profunda e na miragem singular de
conciliar algum humor e até sátira com a seriedade do conhecimento. A
verdade é que a irmandade que se tem gerado à volta desta ideia de
intervenção social tem sempre em mira o nosso estado de simples
humanos que anseiam conhecer-se a si próprios e aprofundar saberes
sobre o enlaçamento com o cosmos de que somos parte integrante.
-
Tendo em vista conseguir que estas notas possam vir a constituir-se como
uma referência o mais próxima possível do autor poético que é Carlos
Pires vou reproduzir o teor de conversas mais ou menos recentes que com
ele tenho mantido. Tentarei fazer uma síntese dessas conversas.
Devo, no entanto, esclarecer que não vou ter a preocupação de relacionar
os inúmeros livros de poesia já publicados por Carlos Pires. Dizer tão
somente que CLP nasceu em 1956 e que vive em Leiria desde os seus 5
anos.
Todos os dados biobibliográficos já constam de inúmeras publicações
perfeitamente acessíveis ao público em geral. De qualquer modo, no
próximo número deste jornal será feito um exaustivo índice de toda a sua
bibliografia.
-

I PARTE
Analisemos a sua obra poética com a ajuda dos dados anotados numa
biblioteca imaginária em que os temas dos seus livros são sistematizados
em blocos ligados por fios condutores fiados pelo próprio Carlos Lopes
Pires:
´O que vamos mostrar é um corpo poético-filosófico, uma espécie de
cosmogonia íntima construída pelo autor poético.`
««
1. O POEMA COMO SER VIVO
Logo no início, o autor afirma:
“o poema / é um ser vivo” “ele respira ama / e sofre”
Aqui, o poema não é representação — é ontologia. Não descreve a vida: é
vida. Esta ideia reaparece em vários momentos, como quando diz:
“um poema é como que um pequeno universo que pensa, sente e fala
consigo mesmo”. A palavra tem espírito. Esta visão aproxima-se do
animismo poético, onde tudo — ervas, casas, gatos, pássaros — possui
alma.
2. A POESIA COMO EXISTÊNCIA, NÃO ARTE
O autor rejeita a visão estética tradicional:
“dizem que a poesia / é arte eu digo / que é existência”
A poesia é uma forma de estar no mundo, não um objeto cultural. É ética,
não ornamento. É caminho, não técnica. Isto ecoa mais tarde quando
afirma:
“a poesia tem uma vocação ética, mais que estética”
Há aqui uma crítica à literatura enquanto instituição e um retorno à poesia
como experiência espiritual e existencial.
3. A FIGURA DO “CLANDESTINO”
Um dos textos centrais é o longo ensaio-poema sobre ser clandestino.
Algumas linhas-chave:
“seres clandestino significa seres autêntico” “ser clandestino custa” “o
mundo que te deram é apenas uma versão da realidade”
O clandestino é aquele que vive fora da normatividade, não por rebeldia,
mas por fidelidade ao seu desígnio interior. É uma ética da autenticidade
radical. O clandestino é o poeta, mas também qualquer ser que recusa a
banalidade e procura o “longe”.
4. A BUSCA DO LONGE
O “longe” é um dos conceitos mais fortes e originais do autor:
“fábrica de fazer longes” “longe é também múltiplo de longe no singular
de longes”
O longe é o infinito, o mistério, o que excede o mundo semântico. É
também a dimensão espiritual da existência. O poeta é aquele que fabrica
longes — que abre espaço para o infinito dentro do finito.
5. A AUSÊNCIA COMO PRINCÍPIO COSMOLÓGICO
O autor cria uma metafísica própria:
“ausência não é o mesmo que nada” “ausência é uma ferida na
consciência” “todas as coisas têm uma parte finita e uma que é longe”
A ausência é origem, é matriz. Deus aparece não como presença, mas
como ausência prodigiosa:
“eu encontro uma ausência infinita. e não a receio”
Esta ausência não é niilismo: é potência criadora.
6. A RELAÇÃO COM DEUS
Há uma espiritualidade profunda, mas não religiosa:
“os que me julgam crente em Deus / não sabem / que sou animista”
Deus é ausência, é silêncio, é o que não se vê:
“senhor / nós nunca te vemos / mas também a água / não vê o céu”
Há uma ternura metafísica aqui — Deus é uma espécie de eco interior,
não uma entidade externa.
7. A INFÂNCIA COMO FONTE DO SAGRADO
O episódio da mãe é um dos mais comoventes:
“a minha mãe tinha um filho / a que não dava conselhos / apenas lhe dava
as mãos / e com ele chorava”
E depois:
“a mãe disse ‘este é jesus que morreu por todos nós e assim é o meu amor
por ti.’ e é tanto o peso destas palavras, que ainda hoje caminho de
joelhos.”
A infância é o lugar onde o sagrado se inscreve no corpo. É ferida e
revelação.
8. A IGNORÂNCIA COMO SABER
O autor assume uma ignorância luminosa:
“a minha ignorância é tão vasta, tão profunda, tão sincera, que chega a
parecer que é um saber”
Isto aproxima-o de tradições místicas (Eckhart, Lao-Tsé, Heraclito). A
ignorância é abertura ao infinito, não falta.
9. O UNIVERSO COMO PALAVRA
No final, surge a síntese:
“o universo é consciência” “o universo é a palavra revelada” “um poema é
como que um pequeno universo”
O poema é microcosmo. A palavra é matéria e espírito. A poesia é a
linguagem do cosmos.
10. ESTILO E CARACTERÍSTICAS FORMAIS
• Verso livre, quase sempre curto.
• Forte musicalidade interior.
• Repetição como mantra.
• Mistura de prosa poética com aforismo filosófico.
• Imagens simples, mas carregadas de transcendência.
• Tom meditativo, íntimo, quase oracular.
SÍNTESE FINAL
Os poemas de Carlos Lopes Pires constroem uma cosmologia poética
onde:
• o poema é ser vivo
• a poesia é ética
• o poeta é clandestino
• o longe é infinito
• a ausência é origem
• Deus é silêncio
• a infância é ferida sagrada
• a ignorância é sabedoria
• o universo é palavra
É uma obra que se aproxima da mística, mas sem dogma; da filosofia, mas
sem sistema; da poesia, mas sem artifício. É uma escrita que procura o
essencial — e que o encontra na simplicidade radical.»»
Como me parece ser notório para o leitor mais atento, o texto desta
crónica, tal como é referenciada na I PARTE acima, é uma reprodução do
que Carlos Lopes Pires sintetizou como resultado da questão fulcral que
lhe tenho colocado quando conversamos sobre a sua obra poética: “qual
seria a tua autocrítica acerca da poesia que tens publicado ao longo dos
muitos anos que já tens como autor ?”
-
Até à próxima

(Crónica de março de 2026 - notícias de colmeias - António as Nunes)

2025/08/06

Escrever e reparar com atenção redobrada na obra literária de Luís Vieira da Mota

 


Já escrevo crónicas mensais para o semanário "notícias de colmeias" desde 2014. Por vezes com alguma dificuldade de gestão de tempo pelo que nem sempre a sua qualidade é a que mais me agrade. Mas cá me vou esforçando. Demais o seu Director e Fundador, pessoa jovem e  que muito estimo tem sido incansável nos seus estímulos para que eu não me deixe ficar pelo caminho. 
Este fragmento que agora apresento refere-se ao meu último "trabalho" e nele pretendo falar sobre o meu amigo de longa data, Luís Vieira da Mota e mui digno escritor. Com vasta obra publicada e muitas crónicas e contos avulsos que por aí vai deixando nas redes sociais. Esperemos que venha a recuperar da doença que o apoquenta e que, no imediato, publique essas crónicas...


Este livro de contos foi editado em 2000 pela Ed. Presença. É um dos que tenho na minha biblioteca. Coisa estranha, só agora é que me decidi a lê-lo, de fio a pavio. Abri-o, ontem, que não sabia do seu paradeiro. Bem o procurei quando escrevi a crónica acima. Coisa estranha mas já vista mais vezes. Tenho os livros de Luís Vieira da Mota na minha biblioteca, na prateleira ESC-1, mesmo ao lado dos livros de Carlos Lopes Pires, Manuel Frias Martins, Maria João Cantinho, Joaquim Jorge, Cândido Ferreira, Joaquim Pires Bento e outros. Este, por falta de espaço nessa prateleira, estava deitado, em cima dos outros. Não estava a reparar nele!!!! 

***

Entretanto, Luís Vieira da Mota faleceu no Hospital de Leiria, já depois desta publicação. Como é do conhecimento público.




2022/11/13

As minhas crónicas no mensário "Notícias de Colmeias", Jesus Cristo e Carlos Lopes Pires...

Nota: 

Sou frequentador de Blogs desde os primórdios do seu aparecimento. Comecei a aparecer na própria www nos anos 80. Fiz variadíssimas experiências a construir as minhas próprias páginas web com o uso directo da linguagem html. Numa fase incipiente, só porque recebi algumas dicas do meu filho, que é Engº de Informática.

Há dias, encontrei nos arquivos digitais a minha crónica para o "Notícias de Colmeias" de Março de 2021. 

...

(por exemplo)

«JESUS CRISTO

(Parte II)

 Prezados leitores

 Antes de começar a escrever a II parte da crónica que comecei no mês passado quero aproveitar este ensejo para transcrever o seguinte poema de Carlos Lopes Pires: 

hoje encontrei Deus
pousado na nossa nespereira
 
ele não faz milagres
ou coisas difíceis de acontecer
 
ele não ordena chuva
e chove
 
nem que as árvores tenham sombra
ou que a luz brilhe na água
 
por vezes
encho o meu coração
de mais e mais ignorância
 
e vou então junto dele
e digo-lhe baixinho ao ouvido
 
sei que és tu

(*)

A poesia de Carlos Lopes Pires é qualquer coisa de transcendental para o comum dos mortais. Consegue transportar-nos para o mundo em que estamos inseridos e levar-nos a pensar no quão maravilhoso é o facto de estarmos vivos, ao mesmo tempo que, indelevelmente, nos confronta com o facto de nós sermos uma parte do universo mutável no tempo que nós não controlamos. Fazemos parte dum mundo em movimento constante e regido por regras ditadas pelo próprio universo. Por Deus…

(mas que nós, enquanto seres vivos e dependentes da nossa capacidade de pensar  e interagir com todos os elementos que nos acompanham nesta aventura universal, temos que ser capazes de aprender a usar os dons que nos são inerentes e que, numa primeira fase, só instintivamente, os conseguimos valorizar.)

---

 Voltemos ao tema que vos propus. Falar de Jesus Cristo e do significado e consequências da sua missão na Terra no sentido duma ligação com Deus.

Se tentarmos ser racionais seremos confrontados inapelavelmente com muitas perplexidades. Mas a História é aquilo que os homens deixaram registado com todos os vestígios que vamos encontrando e que vamos interpretando segundo a lógica do nosso pensamento em cada momento.

... »

-

Era isto.

...

2021/01/06

As crónicas que tenho andado a espalhar aos sete ventos...

 Nota introdutória da secção deste meu blogue, que vai ser designada, "As crónicas que tenho andado a publicar em jornais regionais de Leiria".

Tem esta secção a finalidade de deixar arquivado neste meu "auxiliar de memória" e "arquivo pessoal do que vou observando, estudando e escrevendo..." as crónicas de que eu tenha ficado com cópia digital. A verdade é que estou a ficar sem tempo mas gostava de deixar aqui à mão esses escritos. Porquê? Para quê?!  Não sei exactamente. Talvez que alguém, nalgum tempo, venha a encontrar-lhe alguma utilidade. Talvez até alguma piada. Quem sabe?!

E começo hoje, 06-01-2021, precisamente num dia em que me sentei a secretária do meu escritório em casa, para trabalhar em coisas de contabilidade, finanças, com a cabeça cheia de planos para pôr em dia uma quantidade de assuntos relacionados com duas empresas de que sou o CC (contabilista certificado). E tive necessidade de recuperar uma determinada informação que tinha arquivado algures num dos meus discos externos de cópias de segurança do meu computador.

Dei com esta peça: uma crónica que escrevi e que foi publicada no "Notícias de Colmeias" de Maio de 2018. Ora, dá-se o caso de a minha mãe,  agora com 96 anos, estar muito mal de saúde (alimentada a sonda e a respirar oxigénio com a ajuda dum ventilador) há já bastante tempo. A família, particularmente eu e os meus irmãos (Lurdes-71, Sildina - 69, Vitor - 67 e Isabel - 59) e o meu pai Daniel (96, quase 97 anos, mas que se tem mostrado muito operacional para lidar com a situação, muito especialmente, dado o momento de pandemia que temos estado a viver) estamos serenos mas expectantes... 

Ao ler esta crónica, que agora republico, a imagem da minha mãe veio-me de imediato ao pensamento.

Escrevi, então, em Maio de 2018:

*****

Permitam-me, antes de mais nada, deixar aqui a minha fotografia (agora) ao lado da da minha mãe(em 2014.



CRÓNICAS FRAGMENTADAS (I)

António d´Almeida Nunes(*)

---

Caros leitores do Notícias de Colmeias.

Tenho ocupado estas colunas que me foram reservadas pelo diretor deste nosso semanário escrevendo sobre a História de Leiria enquadrando-a na História de Portugal e sistematizando a informação duma forma cronológica, acompanhando a sequência dos vários reinados do nosso regime monárquico e, no futuro, entrando pela História da nossa República.

No número 30 (Ed. nº 218 – 4 de Março de 2018) desta crónica atingia-se o período em que em Portugal se adivinhavam as movimentações políticas e militares tendentes à restauração da nossa Independência após o domínios dos Filipes de Espanha, até ao 3º de Portugal.

(E como os deputados do movimento independentista Catalão aproveitaram este tempo histórico de tanto simbolismo para a própria ambição de Independência da Catalunha! Já nessa altura os Catalães estavam em armas na luta pela sua Independência enquanto Nação e Estado. O momento recente em que esses deputados cantarolaram “Grândola Vila Morena” no Parlamento Espanhol com cravos amarelos na mão, aquando da sessão de boas-vindas ao Presidente da República Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, logo a seguir a uma estrondosa e unânime salva de palmas após o seu discurso, é disso prova irrefutável.)

Penso que esta sequência de crónicas deve ter continuidade.

-

No entanto, permitam-me que faça um interregno e mantenha o meu espaço no “Notícias de Colmeias” a escrever sobre outros temas, durante os próximos números após o que voltaremos ao tema da História cronológica de Leiria.

Não se trata dum mero capricho meu. Digamos que poderemos passar a uma fase temporária, mais diversificada, na qual me proponho abordar temas diversos, que creio irão ser do vosso agrado.

Com vista a facilitar o trabalho de quem tiver interesse em organizar uma possível coleção das crónicas já publicadas, esta nova série terá uma sequência própria, passando a designar-se:

«Crónicas fragmentadas».

A máxima em que pretendo inspirar-me para esta nova etapa é, tão somente, esta:

Também aquele que escreve é escrito para sempre.”.

-

Antes de mais é hora de tentar dar uma explicação possível da razão do título desta série de crónicas que me proponho começar a escrever, durante um tempo indeterminado mas curto, julgo eu, no momento. Assim:

Ao dar uma vista de olhos num livro «[…] Ensaio sobre os mestres», dei com esta citação de Manuel António Pina 1984:

“Que coisa morreu na minha infância e está lá a ser eu? A lâmpada do quarto? A criança? Em quem tudo isto a si próprio se sente? Também aquele que escreve é escrito para sempre.”

O autor do ensaio chega a esta sensação de que todos nós acabamos por ser a própria projeção no espelho usando-se duma sequência de transcrições de vários escritores de nomeada. E parte deste pressuposto de Luís Miguel Nava: “Uma citação, mesmo quando literal, é sempre uma interpretação.”

Ou seja, o que cada um de nós vai escrevendo, tem, com mais ou menos intensidade uma marca de cópia ou adaptação do que outros já deixaram também escrito. É claro que não temos, forçosamente, que nos rendermos à crueza de que a verdade já foi descoberta e que nós, no presente, só temos que tentar interpretá-la sob um ponto de vista mais pessoal, após o que nos limitamos a dar uma roupagem mais colorida a essa mesma verdade. O nosso pensamento, mesmo que cicule numa corrente contínua, será que pode ser original e único?

Dizem-nos os historiadores que sim, que o homem tem evoluído graças à criatividade e originalidade do seu pensamento. Será mesmo assim?! E qual a influência do tempo na definição dos novos textos  e da caraterização do seu alcance?

Não estaremos nós a contradizermo-nos sistematicamente na ilusão de que somos capazes de prosseguir rumo à superação do impossível?

Na verdade, sucedendo que ao escrevermos, estamos, inapelavelmente, a mostrarmo-nos tal como somos, mesmo que subconscientemente, quando fazemos citações ou quando dissertamos sobre temas/conhecimentos que aprendemos com leituras de outros autores, nem por isso nos podem acusar de plágio. Há quem interprete que plagiar não é só copiar literalmente o que já outros escreveram e até publicaram, mas também sempre que as ideias que arquitetamos com palavras nossas, melhor dizendo, do dicionário, têm os seus alicerces no que outros antes de nós, já  disseram.

Repare-se nesta citação de João Cabral de Melo Neto, 1975:

“Há um contar de si no escolher,

no buscar-se entre o que é dos outros,

entre o que outros disseram”.

Também Fernando Pessoa nos deixava dito, em 1966, o seguinte:

“na leitura de todos os livros, devemos seguir o autor e não querer que ele nos siga”.

Não posso aceitar que se considere plágio o que acontece com todos nós: servirmo-nos do que aprendemos com o que os outros já escreveram antes de nós e acrescentamos algo que há-de sair da nossa própria forma de abordar as mesmas questões, com mais ou menos subterfúgios literários. Talvez que até possamos aclarar determinados pensamentos que podem acabar por ficar melhor apresentados por força do tempo que, entretanto, passou, e com o qual se nos revelaram outras experiências, que nos permitiram confirmar e/ou reformular o que se jugava ser um conhecimento definitivo.  

-

Dei uns passos tímidos na escrita de Poesia tinha eu uns 15 anos, talvez. E acabo esta crónica fragmentada a falar em Poesia precisamente porque atravesso uma fase da minha vida septagenária em que me deu para encarar esta forma de escrever com o maior dos encantos e com vontade de estudar, como se estivesse na Faculdade, a tirar Letras ou Literatura.

A vida obriga-nos a trilhar caminhos que dificilmente serão os que de alguma forma já desejámos ardentemente. As circunstâncias da vida acabam por determinar, em geral, os passos que nos levam a percorrer o nosso próprio caminho, cujo percurso começa por ser uma luz difusa a cintilar como um pirilampo. Bem tentamos seguir o pirilampo mas o mais provável é não sermos capazes de o acompanhar e até corrermos o risco de não ter a certeza que aquele que seguimos com o nosso olhar seja o mesmo de há uns momentos atrás.  

Pois bem. “É dever de cada homem abraçar o seu tempo para se desembaraçar dele.”, citando Patrícia Portela, 2016. Talvez por isso mesmo, penso que estou a fazer um esforço no sentido de, tendo embora em consideração o que já aprendi com Séneca, nascido há dois mil anos e tantos outros, não me sentir já a viver uma época histórica…

(… eis no que a leitura e reflexão sobre as citações dos mestres reportados no livro que referenciei acima podem resultar… )

Havemos de voltar à Poesia…

 (*) Nota: só muito recentemente é que dei comigo a pensar que devia um desagravo à minha mãe. Em 1947 o meu pai fez o registo do estilo, do meu nascimento, com um nome próprio (António) seguido dos apelidos da minha mãe e do meu pai. Foi assim que ficou que eu passaria a ser identificado como António de Almeida Santos Nunes. Mais tarde, aí pelos meus 11 anos, o meu pai, ao pedir o meu Bilhete de Identidade, foi confrontado com a observação dum funcionário que dizia que o “de” não era para ser usado de qualquer maneira, à vontade de cada um. E o meu nome ficou sem esse ´de`. Acresce que, por hábito, fiquei a usar, abreviadamente, António Nunes. Ora, acontece que, precisamente numa altura em que a minha mãe já atingiu os 94 anos de idade e se encontra muito debilitada, decidi que lhe devia esta atenção. Passo a identificar-me com três nomes: o próprio e os sobrenomes da minha mãe e do meu pai, por esta ordem.  

****

2020/12/25

Jesus Cristo

Hoje é dia de Natal 2020. Um ano cheio de incertezas e algumas amarguras, pela vida atípica que estamos a ser induzidos a levar. Por medo?! Por espírito comunitário, porque estamos a perceber que do mal o menos, temos que fazer sacrifícios em nome da nossa sobrevivência como seres humanos face a um vírus que nos está a afectar o sistema imunitário?!

Pelas duas razões, certamente. 

Há dias comprei o livro "A História de Jesus para pessoas com pressa", de Anthony le Donne, ed. Presença, 2020, ainda que já seja de 2018, a sua edição original: "Jesus: A Biginner´s Guide".

O autor, professor Le Donne (como é referenciado na contracapa deste livro) "situa Jesus no contexto da vida judaica do século I, explorando a sua condição de «Filho de Deus» entre os primeiros cristãos. O autor faz uma digressão pela arte medieval europeia, pelas histórias revisionistas, pelos memes contemporâneos da Internet, comparando as várias conceções culturais de Jesus no pensamento do Iluminismo e do pós-Iluminismo. Este livro dinâmico e acessível explora o impacto de uma das figuras mais amplamente retratadas na história humana.» 

Nem sei bem porque é que me decidi a fazer esta compra. A verdade é que a informação sobre Jesus está tão presente que até acabamos por julgar que não há nada mais a aprender/recordar para além daquilo que os nossos pais e avós nos transmitiram, que a igreja nos catequisou enquanto éramos crianças e mesmo já na adolescência e pelo que está escrito nos vários Testamentos da Bíblia.

Ora, acontece que nestes meus últimos anos de duração provável da minha vida, tenho-me debruçado, embora tardiamente, com mais insistência, no reforço de conceitos filosóficos e particularmente na área da Metafísica. A verdade é que, quando nos preocupamos em tentar perceber com mais profundidade a origem e natureza das coisas...

(.... em edição ... )

Talvez porque já esteja em idade de pensar que não me posso dar ao luxo de gastar muito tempo com o disperso. Houve tempo em que - como se pode constatar num relance por este blogue, desde a data da sua fundação - me esforçava por ir até aos pormenores dos fragmentos que ia descobrindo e estudava e falava com as pessoas entendidas nas matérias. O entusiasmo da partilha da informação e do conhecimento era muito. Hoje esse entusiasmo está a esmorecer um pouco. Talvez muito, talvez demasiado, poderei dizer. 

Voltando ao livro.

Fiquei encantado com esta passagem: 

"O Evangelho de João arranca de forma poética com a ideia de Logos (palavra grega que é por vezes traduzida como Palavra ou Sabedoria). Jesus, enquanto Logos, é retratado como uma vontade divina que existiu no próprio início dos tempos. Eis o início de João:

No princípio era a Palavra [Logos] e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas vieram a ser por seu intermédio e, sem ele, nenhuma coisa veio a ser. Aquilo que começou a ser nele foi a vida, e a vida era a luz de todas as pessoas. A luz brilha nas trevas e as trevas não triunfaram sobre ela. (João 1:1-5)".

Há que ter em conta que há vários Evangelhos, que são os Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e o Evangelho de João.  Sinótico significa «visto em conjunto» ou «que oferece uma perspectiva geral».
´Os quatro evangelhos citam, aludem e dão ecos da escritura hebraica. Nos quatro evangelhos, Jesus granjeia um séquito de discípulos, é traído por um deles, é condenado à morte por Pôncio Pilatos, é crucificado e ressuscita.`
No século II Taciano de Adiabene conseguiu ter acesso a cópias dos quatro evangelhos, comparou-os e criou uma história de Jesus harmonizando as narrativas de Mateus, Marcos, Lucas e João que ficou conhecida para a posteridade como o Diatessarão. (em grego significa «composto por quatro»). Julga-se que tudo isto terá acontecido na Síria, por volta de 170 d.C. A tradição deste evangelho quaternário acabou por ser incluída no cânone cristão.

Com o decorrer dos tempos, e fazendo valer o seu poder, a «Igreja Católica» acabou por desconsiderar o Diatessarão 

A partir do século II a história contada de Jesus dá origem ao cristianismo. Apesar das macabras perseguições de Roma aos cristãos, até ao século IV, eis que Constantino adota o cristianismo que se torna a religião oficial do Império de Roma.
Depois de muito debate os líderes cristão chegam a um acordo formal para definir a infraestrutura e um poder religioso e reivindicam a sucessão e ortodoxia apostólica.

... em edição 01-01-2021 18:18 ... (ref p 125)
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14-02-2021
Afinal acabei por avançar para a publicação duma crónica em duas partes no Notícias de Colmeias.


2016/02/08

As minhas crónicas na imprensa de Leiria


Meti-me numa empreitada nova. Convidaram-me para escrever umas crónicas na imprensa cá do município e eu aceitei. É com um prazer muito grande que escrevo. Vamos lá a ver como é que os leitores me vão aturar...https://www.facebook.com/diarioleiria ( quinzenalmente, às segundas feiras); "Notícias de Colmeias" todos os meses, sai no princípio de cada mês.






Como o eu amigo e companheiro da ACLAL - Academia de Letras e Artes Lusófonas, Dr. Prates Miguel escreve uma crónica que sai todas as segundas feiras no "Diário de Leiria", cá nos encontramos de 15 em 15 dias. É uma honra para mim.





2016/01/19

Crónicas minhas no "Notícias de Colmeias" - IV



O Diretor do mensário "Notícias de Colmeias", Joaquim Santos, lançou-me o desafio de escrever regularmente uma crónica para ser publicada neste jornal de que é fundador e a sua alma. No jornal de âmbito geral, tematicamente, e de âmbito global, em termos geográficos. 
Bem sei que a ideia inicial, há 16 anos, era publicar, mensalmente, um periódico que tinha como intenção primordial servir de veículo de informação e de comunicação com os leitores da freguesia das Colmeias - Leiria.
A verdade, porém, é que um periódico, mesmo que dito local, pode perfeitamente almejar atingir leitores da mais variada localização e vocação regionalista, e, portanto, esta ambição poder verdadeiramente vir a constituir-se num objetivo motivador e global.

Assim se assuma e defina editorialmente, como é o caso.

Gosto de escrever. Gosto muito de participar como colaborador do "Notícias de Colmeias".

- Um fragmento da minha última colaboração:  (nº 193 - 6 de Dezembro de 2015)

LEIRIA – CRÓNICAS  E OUTRAS OCORRÊNCIAS  (IV)

IV - Fundação da nacionalidade Portuguesa

4.1 –Introdução

No último número tive ocasião de me reportar a alguns dos mais consagrados autores que muito, e com maestria literária e científica, já se debruçaram sobre a questão do “Castelo de Leiria” e da sua enorme influência na tarefa hercúlea da Fundação de Portugal. Muito haverá que relembrar (nunca será de mais), não tenhamos qualquer dúvida, e esse trabalho será de todo interessante e suscetível de atrair a atenção de quem me possa ler. Aqui deixo a promessa de voltar a este tema, sempre que o consiga enquadrar, na sequência das crónicas que me propus trazer para este semanário.
Sobre a temática da fundação dos monumentos mais emblemáticos de Leiria muito já se tem escrito.
Penso que nunca será de mais lembrar os tempos heróicos e românticos e as circunstâncias em que monumentos como o Castelo de Leiria, o Convento de Sto. Agostinho, o Convento de S. Francisco, a Sé de Leiria, a Igreja da Misericórdia, Igreja de S. Pedro, etc etc foram construídos, as várias fases por que passaram quanto à sua utilização e restauro, o seu simbolismo local e nacional. Sem olvidar, de maneira nenhuma, todos os demais que ilustram as várias freguesias do concelho de Leiria e deslumbram os visitantes. Tudo se deve fazer para promover a sua visita...
No entanto, dada a enormidade da tarefa que é retomar estes temas, a abordagem que poderá ser feita, no contexto desta intervenção cívica e jornalística, que é escrever para um semanário, essencialmente informativo e genericamente formativo, terá de se cingir a aspetos relevantes e outros que, eventualmente, não sejam do conhecimento geral mas que possam captar a curiosidade dos leitores.
-

Antes de prosseguir, gostaria de deixar reexpresso o meu intento de aqui anotar todas as referências históricas reportadas a Leiria, na sua abrangência  territorial conotada com a sua integração administrativa a nível de Concelho. Se para isso conseguir encontrar o devido e difícil engenho e arte. 
(...)

ÍNDICE
IV- Fundação da nacionalidade Portuguesa
4.1 - Introdução
4.2- D. Afonso Henriques (D. Afonso I)  (1112-1185)
4.2.1- Batalha de Ourique (25 de Junho de 1139)
4.2.2- Foral a Leiria de 1142
4.2.3- D. Afonso Henriques e a Leiria de hoje
4.2.3.1- Lenda/História da Tomada de Leiria (Da tradição oral)
4.2.3.2- Afonso Henriques na toponímia leiriense
4.2.3.2.1- Rua D. Afonso Hemriques
4.2.3.2.2- Largo Paio Guterres
NOTAS