2012/02/07

O Tempo às avessas



O PÃO DO TEMPO

Diziam-me que amanhã seria o primeiro dia
depois de amanhã em que não seria preciso
pensar no que há para fazer, nem em fazer
o que há para pensar. Deixei correr o tempo; e
as coisas avançaram sem que amanhã chegasse,
e sem que depois de amanhã me pudesse
lembrar que tinha de pensar no que havia
para fazer. Juntei todas as coisas no alguidar
do poema, onde a massa dos instantes
fermentava. O que eu tinha de fazer
era metê-la no forno da eternidade,
depois de bem amassada; mas esqueci-me,
e quando voltei ao poema
a eternidade estava cheia de um musgo feito
das horas e minutos que eu perdera a pensar
noutras coisas. Ainda espreitei o forno:
mas a lenha ardera até se transformar em
cinza, e em fumo efémero dissipava-se
no céu estranho desta memória de amanhã.

Nuno Júdice
p. 76 – A matéria do poema
Ed. Dom Quixote - 2008

Tratamento digital sobre fotografia
à Lua em quarto crescente, madrugada gélida 
de Fevereiro de 2012, Chainça - Fátima, 
através do tronco e ramos dum Lódão

A ansiedade do momento na Grécia, 
em Portugal e...
é muita. 
Como calar esta nossa expectativa?
Deixem-nos, ao menos,
desabafar!

3 comentários:

Catarina disse...

Muito gira, a foto! : )

Luís Coelho disse...

Um bonito poema.
De quando em vez dás-nos um pouco de beleza paisagísticas e poéticas.
O frio aperta por aí ?
Essa zona é um pouco mais alta e o frio não pede licença...

Graça Sampaio disse...

Desabafar é a única coisa que fazemos. Povo de brandos (leia-se: moles, quietos, parados, indiferentes...) costumes!

Gostei bastante do poema do meu colega de Faculdade Nuno Júdice.