2012/03/03

Ensaio sobre a ausência ...

“ A tua ausência ainda pernoita……
nos escombros de uma fotografia”
....................................................................................Al   Berto


Gosto de escrever. Gosto de ler. Preciso de ler e de escrever.
Abri esta folha, olhei-a, à primeira vista, um branco imaculado.
Sentei-me à secretária com a ideia de escrever, o quê não sabia, tinha adotado o mote daquela metáfora de Al Berto, acima exposta, sem ter a certeza de que conseguiria escrever algo de novo, algo de útil e diferente, que resultasse do trato natural e espontâneo da minha imaginação. Imaginação, o que é a imaginação, em que é que se irá materializar a minha imaginação ao ser transposta para letra de forma sobre esta folha de papel que tenho aqui à minha frente? É verdade que ela já está a começar a aparecer com uns salpicos gráficos, mas para que servirá essa mancha assestada na claridade?

O dia esteve esplendoroso, já é de madrugada, mentalmente em frente diviso uma paisagem vistosa, a Natureza em pleno vigor, o rio Lis aqui perto a caminhar de mansinho, pelo vale, entre montes sobranceiros, mal acabou de nascer. Lá vai ele ao encontro do Lena, na Barosa. Ali se juntam, há quantos séculos não sabemos, há muitos, que não os conseguimos contar, ninguém ainda conseguiu contar. Muitos já o cantaram e continuam a cantar. Maravilhosamente. Bucolicamente. Romanticamente.

Leiria e o seu castelo e o seu rio trazem-me à ideia ausências várias. A  ausência do tempo em que não senti a sua alma, ao mesmo tempo a ausência de terras de Viriato, da minha ancestralidade, da minha juventude.

Poderei afirmar categoricamente que uma grande parte do que me vai ocorrendo na vida está fixado em fotografia. Fotografia no sentido literal do termo. Quantas fotografias não me olham com ares misteriosos, às vezes desconfiados, outras como que a querer falar comigo, enquanto eu as olho e ao olhá-las sou assaltado por sentimentos os mais dispersos, contraditórios e, em muitos casos, a apelar intensamente a certas  ausências, algumas de que mal me tenho apercebido no nevoeiro infernal com que o tempo vai desfocando o tempo.

Ausência…
Pernoitar..
Escombros..






A ausência de alguém corporeamente registado numa fotografia? Já deteriorada pelo correr do tempo?

Essa ausência, o que é?!
Ainda é noite!
Até quando  vai continuar eu mesmo?
Não amanhece…

7 comentários:

Catarina disse...

Um momento de reflexão… um momento intenso. Gostei de ler.

Luís Coelho disse...

Recordações que nos fazem pensar e viver numa oura dimensão.
Quantos dias escrevemos apenas pensamentos que nos invadem e sucedem em cadeias ...?

Centelha Luminosa disse...

Momentos de reflexão, em que nos voltamos pra dentro de nós, e depois, transcremos pela vital necessidade de escrever, ler, reviver...
Toda vez que o escritor ou o poeta escreve, ele preenche vazios, ocupa espaços e faz história.

Muito bom, meu amigo, gostei!

Beijinhos da Lu...

Lídia Borges disse...

“ A tua ausência ainda pernoita……
nos escombros de uma fotografia”

É, de facto, uma afirmação arrebatadora.
Tão profunda e intensa pode ser uma ausência quando, após a ação do tempo, um pequeno retângulo de papel a traz à nossa presença.

Um beijo

Paulo Roberto Wovst Leite disse...

OLÁ ANTÓNIO!

Profundidade e beleza contidas em palavras. Existência: infinitude do Tempo e Espaço x indivíduo.

abraços,
Paulo.

Rogério Pereira disse...

A fotografia, a tua a minha,
regista um momento, no tempo,
Fora dele, não existe mais que a recordação, ou os restos dela

Graça Sampaio disse...

Que de nostalgia, amigo António! Deixou-me um nó na garganta. Assim não gosto! Ai não gosto, não! Vamos a alegrar! Nem que seja por estar bom tempo!

Beijinhos!